terça-feira, 28 de maio de 2019

"Cala a boca, senão não vou te atender", disse médica à ginasta prestes a morrer

"Cala boca, senão vou te tirar da sala e não vou te atender. Seu caso não é de médico, é de psiquiatra. Só louco para estar gritando assim, você não está com dor para isso", disse médica à ginasta brasileira de 17 anos que morreu por negligência.

Jackelyne da Silva morreu aos 17 anos (imagem: reprodução)

  “Cala boca, senão vou te tirar da sala e não vou te atender. Seu caso não é de médico, é de psiquiatra. Só louco para estar gritando assim, você não está com dor para isso tudo.”

A frase acima, direcionada à ginasta Jackelyne da Silva, de 17 anos, foi dita em janeiro deste ano por uma médica que atendia na ‘UPA 26 de agosto’, em São Paulo. Dois dias depois, Jackelyne não resistiu e morreu, vítima de sucessivas negligências médicas.

A Polícia Civil de São Paulo instaurou um inquérito para investigar a morte de Jackelyne. A atleta faleceu no dia 16 de janeiro de 2019, mas até agora ninguém foi responsabilizado.

Jackelyne era atleta do Esporte Clube Pinheiros desde 2010. A ginasta chegou a defender a seleção brasileira nas categorias de base. Ela entrou na categoria adulta em 2017 e batalhava para conseguir um espaço na equipe principal do país.

Na época da morte da atleta, A Confederação Brasileira de Ginástica disse, em nota, que lamentava “profundamente o precoce falecimento da ginasta” e que se solidarizava com os familiares naquele momento de dor. A Federação Paulista de Ginástica afirmou, por sua vez, que “o céu ganhou uma estrela brilhante”.

Hoje, quem lida com a dor diariamente e busca forças para lutar por Justiça são os pais da ginasta, Marco Antonio Gomes da Silva e Graciele Soares da Silva.

O que aconteceu?

No dia 10 de janeiro, seis dias antes de morrer, Jackelyne foi levada à UPA “26 de agosto” pela primeira vez. “Naquele dia, ela levantou de um colchão e teve um mal súbito. Na queda, bateu a cabeça e a lombar e teve uma convulsão. Demos uma fruta a ela para ver se melhorava, mas ficou sonolenta e teve outra convulsão. Chamamos um Uber e fomos para a UPA”, conta a mãe da ginasta.

“Na UPA ela tomou remédio para dor. Mesmo falando que tinha caído e teve convulsão, bateu a cabeça, não pediram exames. Liberaram para ir embora depois da medicação. No dia 11, ela não reclamou, mas no dia 12 voltamos para a UPA e para o hospital Planalto. Foi a mesma coisa. Chegava, falava o que aconteceu e cada médico dava mais remédio e mandava embora. Sem exame de sangue, sem raio-X, sem nada. Jack já não conseguia andar sozinha, só de cadeira de rodas e com ajuda”, lembra Graciele Soares.

“O dia 14 foi o pior na UPA. Pegamos a pior médica. Minha filha chegou aos berros, não aguentava de dor. A doutora gritou: ‘Cala boca, senão vou te tirar da sala e não vou te atender. Seu caso não é de médico, é de psiquiatra. Só louco para estar gritando assim, você não está com dor para isso tudo’. Ela não levantou da cadeira para examinar minha filha, não encostou nela. Ela receitou duas injeções de Diazepam. Eu falei para fazer exame, mas nada. Nem para botar o aparelhinho para escutar os batimentos dela”, acrescenta a mãe de Jack.

Despedida

Jackelyne voltou ao hospital no dia 15 acompanhada do pai, que estava de folga do serviço. “No dia 15 chegamos antes das 11h no hospital Planalto e ficamos até mais de 19h. Fizeram uma tomografia e o resultado foi uma lesão no cóccix. Teve um momento que eu fiquei uma hora e meia esperando atendimento e não tinha ninguém, nem paciente e nem quem pudesse atender a minha filha. Ela me pediu um abraço, não conseguia mais mexer as mãos. Ela estava se despedindo de mim. Ela pediu para irmos embora, porque não iam nos atender e ela sentia muito cansaço. Voltamos para casa”, conta o pai, Marco Antonio.

“Dia 16 ela acordou cedo e chamou a irmã mais nova. Ela se despediu e passou a senha do celular. Ela sabia que estava indo embora. Ela me pediu para ir ao banheiro, mas não conseguiu fazer nada. Dei um banho nela e ela teve outra convulsão. Saímos às pressas. Ela ainda respirava, mas muito fraquinho. Chegamos na UPA e levaram ela para dentro. Fiquei esperando, uma agonia. Só contaram que minha filha estava morta quando meu esposo chegou”, lembra Graciele.

Justiça

O Pinheiros, acusado pelos pais de Jack de abandonar a menina nos meses que antecederam a morte dela, afirmou que os atletas são orientados a entrar em contato imediatamente com o clube em casos de problema de saúde.

O Clube Pinheiros tentou romper legalmente o contrato com Jackelyne em dezembro de 2018 — a atleta era preterida nos treinos depois de lesionar o quadril e não conseguir se recuperar completamente. No entanto, quando Jack morreu o contrato ainda não havia sido desfeito.

Os pais de Jack alegam que nunca souberam exatamente se o Clube Pinheiros oferecia algum tipo de benefício à sua filha — como possibilidade de receber atendimento médico em local particular. Graciele e Marco afirmam que jamais tiveram acesso ao contrato assinado com o clube.

A delegada Áurea Aubanez, do 32º Distrito Policial de Itaquera, afirma que sete médicos estiveram envolvidos no atendimento da atleta. Os nomes dos profissionais não podem ser revelados para não atrapalhar as investigações.

Jackelyne vivia com os pais e cinco irmãos no bairro de Itaquera, em São Paulo. A ginasta ajudava com as despesas de casa e tinha Daiane dos Santos como espelho. A jovem foi enterrada com o ouro conquistado nas barras paralelas assimétricas junto à seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano de Ginástica, na Bolívia em 2016. Um laudo divulgado há 2 meses aponta que a menina morreu por infecção decorrente de pneumonia.

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